terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Huayhuash 1

Primeiro dia:

Huayhuash é uma cordilheira vizinha da Cordilheira Branca, próxima de Huaraz - Peru. Muitas das montanhas mais bonitas e difíceis da América estão ali, como Yerupaja, Siulla Grande, Jirishanca e outras. Minha intenção seria ao menos ver de perto essas colossais montanhas. Como não tinha muito tempo e estava com pouca grana pra pagar uma agencia de trekking, resolvi me aventurar por conta própria em um pequeno trekking pelo lado norte da cordilheira. Digo pequeno porque todo o circuito de Trekking de Huayhuash leva de 10 a 12 dias para ser percorrido, totalizando mais de 160km em terrenos montanhosos.
Como sobraram alguns dias depois das escaladas, eu gostaria de conhecer o caminho até o Yerupaja e acampar no mesmo campo base que Joe Simpson e Simon Yates, quando estiveram escalando o Siulla Grande e de onde originou a história do seu Best Seller montanhístico “Tocando o vazio”.
Saí às 6h da manhã de Huaraz em um ônibus chamado “El Rápido” com destino a Chiquian. Chiquian é uma pequena cidade de onde antigamente se iniciava o caminho. Hoje existem duas estradas de terra que ligam Chiquian a dois altos vilarejos de camponeses, onde se pode iniciar a caminhada. A maioria dos caminhantes inicia por Llamac ou aproveitam a estrada e vão até um outro povoado chamado Matacancha, assim evitando um dia de trekking por estrada de terra. Existe ainda um outra opção que muitos descartam, que seria iniciar o trekking por Paclión, outro vilarejo de camponeses.
O “El Rápido” furou um pneu e se mostrou bem lento para resolver o problema. Uma boa parte da estrada é asfaltada e a viagem até Chiquian segue com tranqüilidade. Se aproximando do destino, o asfalto dá lugar a uma estrada de terra por onde o ônibus tem que seguir lentamente. Muitos homens trabalhavam na estrada. Creio que para o próximo ano todo caminho até Chiquian já deverá estar asfaltado. Atrasamos um pouco e as 9h chegamos em Chiquian. Mas já era tarde e o único “colectivo” que vai para Llamac já estava lotado.
De Chiquian saí uma Van as 8:30 da manhã para Llamac com capacidade para umas 15 pessoas, mas a desse dia já estava com 19 pessoas. Não há outro transporte na cidade, nem sequer taxi ou outro particular, se quisesse ir para Llamac deveria esperar até o próximo dia. Então me deram a idéia de ir para Paclión, uma outra pequena vila no alto das montanhas, para Paclión teria uma outra van as 17:30h.

Fiquei decepcionado, pois planejava estar caminhando por volta de umas 11h da manhã. O que fiz então foi garantir meu lugar na van das 17h. Teria o dia todo para conhecer a pequena cidade de Chiquian.

Por onde caminhava ou parava todos queriam saber pra onde ia, de onde vinha, se precisava de guia, de burros e arrieros, então explicava que estava indo sozinho com pouca coisa, para poucos dias e dispensava os serviços locais. Próximo de uma praça central, fiquei surpreso ao encontrar uma Lan House. Numa vila onde teria que esperar mais de 8h por um transporte, onde nem carro existe, havia internet. É pra vermos que nosso mundo esta realmente se globalizando. Entrei no estabelecimento e logo tirei minha mochila. Havia uns 5 computadores ao lado um do outro, separados por uns velhos biombos preto. Me dirigi até um velho balcão de vidro com alguns materiais de escritórios empoeirados a venda e pedi então um computador para usar. Antes de ir para o computador precisa ir ao banheiro urinar, pedi se havia “baño” no local e a moça me apontou uma cortina de plástico ao lado do balcão e a frente dos computadores. Jurava que ali fosse uma estante simplesmente coberta pela cortina. Que nada, o vaso sanitário estava ali bem no meio do estabelecimento coberto apenas por uma cortina. Não tinha muito tempo pra frescuras então puxei a cortina e mandei ver. Engraçado era o aviso impresso numa folha A4 já meia amarelada que dizia assim: “Servicio Higienico solamente uso urinário”. Imagine fazer o número 2 ali, bem no meio do estabelecimento. Fui para o computador e logo umas duas horas se foram, entre bate-papos com amigos, blogs e sites.
Depois fui encontrar um restaurante, fui ao que parecia ser o melhor restaurante da cidade, devo ter cruzado por uns três. Pedi um cordeiro assado, que seria uma das opções do “Menu Del dia”. A comida estava muito boa, como sempre uma sopa de entrada e depois o prato principal. Melhor mesmo foi pagar 5 Soles pela refeição + o refresco, algo em torno de R$ 2,50. A tarde foi de muita conversa em padaria, na praça, na rua, até que conheci uma querida família que trabalha com o trekking de Huayhuash há muitos anos. Mony foi muito simpática ao puxar assunto comigo enquanto fotografafa uma praça, me apresentou ao seu pai Yorder Barnabé, a quem serei muito grato pelas ótimas dicas e por ter conseguindo um lugar para eu passar a noite em Paclión. Como teria pouco tempo e já tinha perdido mais um dia esperando, Yorder me mostrou um caminho mais ao norte, que teria um belíssimo visual do Yerupaja, então deixei de lado o Campo Base da Siulla Grande e aceitei as dicas de Yorder.

Depois de um dia de muita espera, muita conversa e novas amizades, já estava chegando a hora do meu “colectivo”. Fui até a empresa de onde havia comprado as passagens e lá aguardei por mais uma hora, o estabelecimento de transporte não tinha nem placas novas, ainda funcionava com uma velha pintura da antiga ferreteria que funcionava no local. Enfim por volta de umas 17:40 chega uma camioneta Ford Vermelha, a princípio imaginei que seria um carro de suporte pra levar as bagagens na carroceria. Logo percebi que o povo estava subindo sua bagagem na carroceria e sentando sobre ela. Não acreditava que havia esperado um dia inteiro pra viajar 2 horas empilhado em cima de uma carroceria. Já estava arrependido de não ter pago 200 dólares pra uma agência de Huaraz. Mas o que eu esperava por 8 soles (R$ 4,00). Joguei meu galo de briga pra cima da carroceria e boa, mas já não havia lugar pra ir sentado. Depois de um pouco de confusão pra decidir quem seriam os dois sortudos que iriam ao lado do motorista, partimos às 18h com umas 16 pessoas amontoadas entre malas, sacos de sementes e pintinhos. Eu já estava na fase do “foda-se”, vamos embora, este seria meu primeiro transporte-aventura, e que aventura, em pé duas horas por estradas que serpenteiam as encostas das montanhas. Dava um frio na barriga quando em algumas curvas os cascalhos rolavam montanha abaixo, e bem do meu lado ainda.
Logo a noite caiu e só víamos a luz da camioneta rasgando a silenciosa e imensa escuridão das montanhas. Estava um pouco gelado, assustado e preocupado, pois chegaria a noite em um vilarejo desconhecido e procuraria por um estranho para me dar abrigo naquela noite.

Depois de duas horas de montanha russa chegamos ao simples e pobre vilarejo de Paclión, ao chegarmos um casal de simpáticos camponeses que traziam sementes da cidade me ofereceram alojamento, sabiam que eu era um turista brasileiro muito distante de uma hospedagem. Agradeci a oferta, pois eu já tinha uma indicação de Yorder, teria que encontrar em Paclión seu irmão, Orlando Barnabé, logo ao descer um bêbado se ofereceu para me levar até a casa de Orlando, para meu alívio a casa ficava umas duas quadras da praça onde descemos. O bêbado batia na porta e gritava pelo nome do Orlando, eu já estava quase morrendo de vergonha, chegar na casa de um estranho aos gritos e ponta-pés seria muito pra terminar aquele dia. Logo Orlando surgiu da casa de seu vizinho, então me apresentei, disse que teria vindo procurá-lo por indicação de seu irmão. Então me conduziu ao segundo piso de sua humilde casa de adobe, onde eu passaria aquela noite. Orlando é um humilde pastor de ovelhas e na temporada de Trekking também trabalha de arrieiro para seu irmão, conduzindo animais e turistas montanha acima.
Foi muito bom ter conseguindo aquele quarto no vilarejo, já que não estava levando barraca para essa caminhada, dormir em um quarto, por mais simples que fosse seria muito melhor que fazer um bivaque na praça da cidade ou pelas redondezas desconhecidas. A casa era muito simples, com paredes de adobe(barro e palha) e piso de chão batido. Uma cadeira de palha azul desbotada escorada na velha e empoeirada porta servia como uma tranca. Aquele quarto seria um ótimo abrigo para aquela noite. Conversamos um pouco e Orlando me disse que no próximo dia subiria a trilha para cuidar de suas ovelhas, então percebi que minha sorte já estava melhorando. Seria muito bom ter companhia no começo da trilha. Estendi meu saco de dormir sobre uma velha cama que parecia que iria desmontar com meu peso. Estava cansado e logo adormeci. Fiquei muito feliz com a hospitalidade dessa família, só mesmo em um lugar muito distante, entre pessoas humildes e simples que encontramos essa escassa compaixão pelo próximo. Nessas montanhas o povo leva uma vida muito diferente daquela que levamos em nossas contaminadas cidades. É algo como retroceder uns 200 anos . A parte mais nobre desta viagem é conhecer este povo que vive e sobrevive no coração da cordilheira dos Andes. Quanto mais longe eu vou, quanto mais conheço esse povo, mais admirado eu fico, como podem ser tão guerreiros, tão fortes e ao mesmo tempo simpáticos e hospitaleiros.


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Um comentário:

Bettina disse...

Adorei o blog e as fotos! Eu q sou apaixonada por viagens, voltarei sempre aqui. :)