segunda-feira, 21 de janeiro de 2008

Novas vias no Parque Nacional do Iguaçu.

Pra quem ainda não sabe, temos muitas opções de vias de escalada aqui em Foz do Iguaçu, já são em torno de 60 vias de escalada ao longo do Canyon do Rio Iguaçu.
Temos muitas vias em móvel e muitas outras com chapeletas. Do III ao VIII grau, pra todos os gostos, na maioria em setores esportivos.



Aproveitando essa minha temporada na cidade abrimos novas vias, no maravilhoso lugar onde comecei a escalar, juntamente com meu amigão Zangão e Lucélia.


Temos muitos projetos ainda pela frente, pois ainda temos muito setores para explorar.



Vou começar a publicar aqui algumas das novas vias que estamos abrindo e aos poucos os croquis mais antigos.

Por ser uma área de escalada dentro de um Parque Nacional, e não só por isso e sim por estar dentro do mais comercial parque do Brasil é um tanto complicado escalar ali. Mas para aqueles persistentes cabeças de pedra a melhor e mais conveniente forma é entrar em contato com algum cabeça de pedra daqui. Ou membro ativo e escalador da AMC, Associação dos montanhistas de cristo, que hoje, escalando não deve passar de umas 5 pessoas, ehehehe.




















Eu no Crux da Fissura da bromélia, Vsup.










Eu passando o Crux da Elástica, VI












Entalamento de braço na senhor dos pregos, dia da conquista.

segunda-feira, 7 de janeiro de 2008

Huayhuash - Quinto dia - Retorno

Levanto apressado as 5h da manhã, porque sabia que seriam uns 10 km de caminhada até a vila de Llamac e sabia que a único transporte de volta até Chiquian sairia ao meio dia da vila. Rapidamente guardo as coisas na mochila e engulo os pães com geléia e me mando com meu galo de briga, antes de sair do vale da lagoa aceno para meu vizinho que já estava acordado e sigo descendo ao lado do rio Paclión. Haviam me dito que há um sistema de captação de água nesse rio que vai até a vila de Llamac e pelo qual seria mais rápida e segura a caminhada.

Depois de uma hora de caminhada encontro esse ponto de abastecimento de água e mais algumas casas de pastores, vejo que o caminho do canal é obvio e com menos sobe e desce que a trilha normal. Como estava com pressa mantenho um ritmo quase de corrida, agora com a mochila leve poderia até correr senão fosse o risco de cair e voar centenas de metros desfiladeiro abaixo, pois o canal segue na encosta do vale. Parava apenas para beber um pouco de suco e recuperar o fôlego. Após umas 3 horas de caminhada encontro um senhor muito simpático, que quis conversar comigo, e logo foi pedindo se tinha balas, então lhe dei minhas ultimas comidas, um pacote de bolacha e uma barra de chocolate, ele estava indo pastorear suas ovelhas, me indicou o caminho para descer até a vila, pois já estava próximo. Nos despedimos e parti com minha pressa por chegar. Logo chego num col onde é possível avistar a vila lá em baixo, e começo rapidamente a descida, que tinha muitos zigue-zagues e parecia não terminar, mais uns 30 minutos na correria e já estava na estrada que daria na vila.

Ao entrar na vila e sentir todo o povo local te observando como uma alienígena é uma sensação estranha, fui cruzando algumas ruas de terra batida e casas de adobe até chegar numa praça central onde acreditava sair o transporte para Chiquian, nesta praça há uma igreja e ao lado um Mapa bem grande de todo o Circuito Huayhuash. Me informo onde devo esperar o “colectivo” e vou a caminho da empresa de transporte para comprar a passagem, as passagens são vendidas em uma pequena mercearia, na realidade não há ticktes, o que garante sua passagem é colocar seu nome em uma lista de passageiros. Eu seria o oitavo passageiro pela ordem da lista. Ainda devo esperar mais uma hora sentado em um banco velho de madeira escorado numa parede de barro e pedras. Eu já sabia qual seria a Van que iria nos levar até Chiquian, pois ela deixa alguns gringos no ponto e sobe até um vilarejo mais acima. Pelo que parece são três gringos que vão começar a trilha por Llamac, um deles vem até minha direção e me pergunta algumas informações sobre a trilha e onde conseguir pães em Llamac. Depois de alguns minutos já com um bom estoque de pão de piso eles partem trilha adentro.

Estava contente por ter chegado há tempo. Passados alguns minutos surge uma van novinha e vazia, pára no ponto e pergunta se queríamos ir direto pra Huaraz. Na hora eu e mais alguns nativos fechamos por 20 soles a viagem e embarcamos. Deixei prá lá meu lugar na outra Van e estava facero de voltar direto pra Huaraz e numa boa condução. Foi sorte ter aparecido aquela Van, eles haviam trazido uma família para um enterro e estavam voltando vazio para Huaraz. Depois de uma hora de montanha russa estávamos passando por Chiquian e mais uma hora e meia chegando em Huaraz. Caminhava apressadamente, muito empoeirado, sujo e faminto. Não via a hora de chegar no hostel tomar aquele banho quente e sair pra comer. Andando novamente pelas ruas de Huaraz ouvindo todo o barulho do trânsito e todas as pessoas caminhando na rua, já sentia saudades do isolamento e silêncio de Huayhuash.


Assim que puder devo voltar lá e fazer todo o percurso, mas quero ir com bons amigos, pois acredito que realmente é um dos melhores trekkings do mundo.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2008

Huayhuash - Quarto dia



Não é todo dia que acordamos debaixo de uma árvore, a milhares de quilômetros de casa, no meio da cordilheira dos Andes e sem nada pra fazer. O amanhecer que presencio aqui é algo de uma beleza difícil de descrever, pois o dia já nasceu, mas o sol ainda esta atrás desse branco paredão de gelo ao fundo. Aos poucos os raios vão cruzando o topo da montanha e refletindo sobre as nuvens acima. É como se o sol estivesse com vergonha de se mostrar, por uma 7:30 da manhã ele consegue transpor as montanhas e agora os raios do sol secam a leve geada da manhã e os cristais de gelo sobre o meu saco de bivaque descongelam.

A parte dura da manhã foi desgrudar os olhos, mas como dormi a 3 passos da lagoa rapidamente estava desperto e com o rosto limpo. Se teve um dia que seria meu e não faria nada, seria este, tão longe, tão só e sem nada pra fazer além de contemplar aquela beleza majestosa e selvagem. Mas eu tinha meus planos para o dia, seria o dia da pescaria, e estava com esperança que iria dar certo. Desde que o Zangão meu amigão me contou que ficou dias comendo truta fresca no Valle Encantado, próximo de Bariloche na Argentina eu sempre pensava que seria muito bom estar na montanha e conseguir comida fresca. Após o meu mingau matinal de aveia, estava preocupado com o que usaria de isca, já que pão pareceu não dar certo. Então fui escavar num lugar úmido e fresco em busca de minhocas e encontrei, me sujei todo, mas consegui muitas minhocas.

Pronto agora sim estava me achando o pescador. Juntei minhas tralhas e fui ao fundo da lagoa onde um rio descia do glaciar, serpenteava uma pequena planície e desembocava na lagoa. Ao chegar no ponto onde desembocava , a água era cristalina, o rio devia ter uns 4 metros de largura por uns 80 centimetros de profundidade e não acreditei quando comecei a avistar as trutas em trânsito subindo e descendo o rio, o que me assustou era a velocidade que nadavam no fundo do rio. Mas sentei ali, preparei carinhosamente a isca e fiquei ali, no começo parecia que só as trutas pequenas se interessavam e nada de eu fisgar uma grandinha, daquelas de um palmo e meio que avistava cruzando como um raio no fundo do rio. Depois de uns 30 minutos surge com uma varinha de bambu o camponês que morava na outra margem do rio, ele vem até mim, me diz que escolhi um belo dia e lugar pra pescar, olha minhas iscas e faz uma cara “hum gringo esperto”, mas diz que pra cima tem alguns pontos melhores pra pescar, então subimos.

Ele pesca uns 20 metros acima de mim e a cada momento que olhava pra ele, retirava uma truta. Depois de mais ou menos uma hora e observando as técnicas locais consigo tirar a primeira trutinha do rio, mas meu vizinho já tinha pegado uma meia dúzia. Mais algum tempo e ele surge me pedindo se tenho anzol extra, pois uma truta levou seu último anzol, então lhe dou dois anzóis, uma chumbadinha e o restante do meu carretel de linha, nunca achei que faria alguém tão feliz com aquele presentinho. Na hora ele pega as duas maiores trutas que pegou e me presenteia, pronto estávamos todos felizes agora. Mas eu ainda insisto até conseguir pegar mais uma. Sinceramente se ficasse dentro do rio dando pauladas acho que teria pego mais , meu amigo vai embora com muitas trutas. No final da pescaria descubro o que seria obvio, o bastão de caminhada não serve pra pescar, não tem sensibilidade suficiente pra sentir as fisgadas de um peixe tão rápido como a truta. Mas retorno contente com quatro trutas frescas para o almoço.

Almoço de umas 3 horas da tarde, porque ainda limpei e fiz um belo filezinho. Já havia provado Trutas na argentina e em Salinas no Rio, mas aquele filezinho grelhado com manteiga ali no meio do nada superará qualquer truta que eu provar na vida. Algumas comidas tem sabores diferentes quando provadas sobre circunstâncias improváveis. A tarde um merecido descanso a sombra, depois uma organizada no camping, buscar mais lenha pra noite. Antes de cair a noite vou fazer uma visita ao meu vizinho do outro lado da margem da lagoa. Ao voltar pelo caminho do dia anterior vejo que os italianos já deixaram o lugar. Chego na humilde casa do meu vizinho que infelizmente não consigo recordar seu nome, me estende uma pele de ovelha sobre uma pedra para eu sentar . Ele pede a sua esposa pra fritar mais umas trutas. Depois de alguns minutos ela surge da penumbra da casa que tem um único e já escuro cômodo, o qual serve de cozinha e quarto para o casal. Conversamos por quase uma hora e sinto que fiz novos amigos nos Andes, antes de voltar deixo com eles o restante da minha comida, coisas muito valiosas naquela região, como, chocolate em pó, leite em pó, atum, purê de batatas, geléia e outras coisinhas. guardo apenas um pouco de aveia, um pacote de bolacha e uma barra de chocolate e dois pães com geléia. para o dia de retorno. Volto caminhado já na escuro e com frio, pois a temperatura havia caído bastante, mas com o mesmo pensamento me incomodando, como poderia um casal viver feliz ali, longe de tudo, longe de qualquer recurso digno de sobrevivência, isso reforça a minha tese de que a felicidade não está nas coisas materiais. É reconfortante estar novamente dentro do saco de plumas com uma fogueira acesa, devo dormir cedo, pois o próximo dia será o dia de retorno e uma longa caminhada me aguarda.

quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Huayhuash - Terceiro dia

Depois de dormir literalmente contando ovelhinhas, acordo numa manhã muito linda e ensolarada. Saio do meu refúgio e já vejo centenas de ovelhas saindo dos currais e tomando o caminho das montanhas. Logo estarei fazendo o mesmo, mas no sentindo contrário delas. Preparo um café da manhã, com chá indiano com gengibre e o típico pão de chão com geléia de morango. Antes de terminar meu desejum recebo a visita de um casal que estava curioso em saber quem seria o gringo ali perdido, pedem licença e então entram no meu refúgio, percebo que os dois ficaram surpresos ao me encontrarem ali dentro, sossegado com metade do corpo ainda dentro do saco de plumas e a outra metade do corpo debruçado sobre a cozinha. Ofereço-lhes um chá e conversamos um pouco, eles me explicam que tem um curral há uns 400 metros abaixo e que já estavam subindo pastorear as ovelhas montanhas acima. Ficam admirados por encontrar alguém ali, mas logo partem com suas ovelhas.

Termino meu café da manha e logo guardo tudo na mochila, tudo pronto pra mais um dia de caminhada. Deixo meu refúgio pra trás, dou um tchau com acenos de mão a Orlando e sua esposa que também seguem com suas ovelhas e vou em direção a um outro vale por onde deverei caminhar por algumas horas, cruzo alguns currais abandonados e vou seguindo um caminho levemente batido. Dou uma parada numa boa pedra pra resolver algumas necessidade e logo retomo minha caminhada mais leve e depois de uns 10 minutos encontro uma cachoeira de uns 8 metros de altura. Paro ali pra um banho matinal, escovo os dentes e prepara um suco. Agora mais leve e mais limpo parece que até o dia ficou melhor.

Minha preocupação é com o fundo do vale que vai se descortinando a minha frente. Lá no fundo eu avisto uma montanha muito grande, a qual teria que atravessar. Pelo pobre mapa que estava levando o caminho para cruzar aquele vale e subir a montanha parecia ser pela direita do vale. Mas desde que vi a montanha pela primeira vez, já deduzi que o melhor caminho seria pela esquerda, mesmo tendo um caminho mais íngreme, parecia chegar a um col, ao qual imaginava que daria acesso ao outro lado da montanha e do vale. Nesse trecho da caminhada não havia mais caminho definido, somente alguns caminhos de animais.
Algumas horas de caminhada foram muito tensas, meu mapa cada vez mais parecia dizer que o caminho era pra direita, eu continuei insistindo no meu instinto e visão de montanhista e segui subindo pela esquerda mesmo sem encontrar nenhum caminho definido. É incrível quando estamos com dúvida ou perdido, tudo que você avista ao longe parece ser o melhor caminho, eu seguia pela esquerda com os olhos fitos a direita do vale procurando qualquer sinal da trilha.

Para meu alívio encontro logo após uma lage de pedras, pegadas de burros, então suspirei aliviado por saber que estava na direção certa. Quando surjo depois de uma pequena elevação muitos condores saem voando, levo um susto ao ver dezenas de aves daquele tamanho. Junto do susto logo sinto o mau cheiro de um cavalo morto que estava servindo de refeição aos condores. Sozinho ali naquele lugar, logo após uma sensação de perdido e presenciar um cavalo sendo comido por condores não foi a melhor imagem do dia. Atravesso um pequena subida numa moraina com muito cascalho e logo encontro um caminho muito batido.
Finalmente havia encontrado o tal “Passo Yauche”, eles chamam de passo todos os caminhos que sobem uma montanha abruptamente e então atravessamos e descemos para o outro lado do vale. Fiquei contente por minha intuição ter me conduzido ao lugar certo. Descanso um pouco, agora mais aliviado pela tensão de estar perdido. Até o momento não havia tido nenhuma vista do Yerupaja e das grandes montanhas de Huayhuash. Mas sabia que ao chegar no topo do Passo Yauche eu teria uma vista surpreendente.

Segui os conselhos de Yorder Barnabé e me dirigi a crista da montanha para ter uma vista melhor. Estava cansado pois já devia ter subido um desnível de uns 600 metros, mas muito ansioso para chegar ao topo. Após mais uma hora de subida chego ao col que me dá uma visão perfeita de todas essas montanhas. Antes de descer a trilha vou subindo mais a aresta e como Yorder me disse a vista vai ficando mais impressionante, já podia até avistar uma parte da parede do Siulla Grande. Do ponto de onde estou tenho a visão do Rondoy, Jirishanca, Yerupajá, Rasak, Tsakra e outra montanhas menores. Me encontro a 4800 metros de altura e observo montanhas colossais como o Yerupaja de 6600 metros.

Fico sentado observando, admirando e contemplando aquelas lindas montanhas selvagens. Fico me perguntando quando estarei apto a subir uma montanha como aquela, como gostaria que fosse na próxima temporada. Fico olhando a montanha e buscando um caminhos menos vertiginoso que leve ao cume, mas só vejo a lei da gravidade desafiada pela neve que insiste em permanecer pendurada em paredes muito verticais. Mas esta montanha Yerupajá entrou na minha lista, talvez seja a mais linda e mais perigosa que anseio em escalar neste momento, mas vou dormir com a tela que tanto queria ter pintado em minha memória.

O Rasak uma outra linda e enorme montanha cobre uma parte da visão do Yerupajá, e agora valorizo muito mais a escalada do Waldermar Niclevicz no Rasak de 6000 metros. Vejo o quão duro deve ter sido sua escalada por essas montanhas perigosas e desertas. Fico imaginando que aqui foi o cenário de grandes escaladas e grandes conquistas, um lugar de homens realmente corajosos. De grandes aventuras, de grande solidão, de dias na montanha enfrentando perigos reais e desbravando caminhos desconhecidos, fico até com vergonha de estar aqui a passeio caminhando levemente por essas montanhas enquanto as paredes de gelo gritam para serem escaladas.
São aproximadamente uma hora da tarde e devo baixar a outra face da montanha que havia subido, identifico o caminho agora mais batido e vejo que terei algumas horas castigantes para meus joelhos, vou descendo rapidamente para aproveitar mais a descida, tenho pressa porque não quero terminar a caminhada à noite. O caminho agora fica bem mais fácil, pelo mapa seria só seguir esse próximo vale até o encontro com o rio Paclión, a laguna Jahuacocha ficaria mais alguns quilômetros acima no rio Paclión. Desço rapidamente uns 300 metros de desnível e logo estou atrevessando um outro vale a esquerda de um belo riacho, vou passando por lugares de uma beleza impressionante, algumas pastagens, riachos, algumas vaquinhas descançando a sombra de cipestres. Se tivesse mais tempo gostaria de parar por aqui pra tirar um cochilo, mas estava com pressa e fui caminhando em um ritmo muito forte, quase correndo. Por um momento tenho que parar pra fazer algumas fotos de uns paredões enormes e incrivelmente escaláveis, com fendas que parecem ter mais de 400 metros, fico impressionando com tanta rocha, pelo que pesquisei depois, ali ainda não existe nenhuma via de escalada em rocha, mas o potencial é sem dúvida enorme. Fico ali observando alguns sistemas de fendas que poderiam conduzir ao topo daquelas torres de granito. De longe parece que algumas tem mais de 700 metros. Continuo pela trilha até chegar em outro vale agora do Rio Paclión, ainda estou alto e agora já avisto no fundo deste outro vale a lagoa que estava buscando e que seria meu destino final da caminhada.
Agora minha pressa diminui pois seria só descer mais uma encosta de uns 300 metros e já estaria chegando ao encontro da laguna Jahuacocha. Lá do alto avistei apenas umas três barracas armadas próximas ao final da lagoa. Já imaginava que teria companhia por ali, pois o lugar é ponto de parada para quem faz o percurso inteiro. Mas imagina que encontraria mais pessoas. Desço uma trilha bem inclinada e com muito pó, escorrego várias vezes, numa delas caio sobre uma perna, por pouco eu não torço o pé. Respiro fundo e tento descer mais vagarosamente e com mais cuidado, após uns 30 minutos de descida já estou chegando as margens da lagoa. Como era de se esperar vejo algumas casinhas de camponeses, e vejo que há pessoas morando por aqui, também cuidando das suas ovelhas e animais. Atravesso sobre algumas pedras uma pequena cascata, que então me deixa do outro lado da margem do rio Paclión.

Deste lado estão as barracas que avistei lá do alto. Logo que chego encontro o cozinheiro e o guia de alguns clientes italianos que estavam fazendo o circuito todo. Como era de se esperar eles ficam surpresos por eu estar ali sozinho, sem burros, sem guia, sem barraca. Logo um deles conta que um gringo se perdeu por ali há uns dois anos atrás e quase morreu de fome, contam que uma turma foi seqüestrada por campesinos e por aí vai, pra mim é tudo pressão pra na próxima eu pagar um guia.
Fico muito aliviado por ter chegado ali ainda com sol alto e poder curtir aquela lagoa linda, com uma cor impressionante, um verde esmeralda muito lindo. Não queria acampar ali perto dos Italianos, queria encontrar um lugar bacana, que ficasse isolado, pelo menos por aqueles dois dias que permaneceria ali. E então saio em busca de um lugar legal. Antes de sair um campones local me cobra uma taxa de 15 soles, uns 7 reais pra poder acampar ali, dou uma chorada, digo que não sabia, que não ia nem montar barraca. Mas não teve jeito, paguei e acabei fazendo amizade com o tal morador . Ele vive ali com sua esposa e algumas ovelhas. Segui contornando a lagoa que agora se mostrava muito grande, fui caminhando até chegar na outra margem, este lado da lagoa fica muito próximo do Glaciar do Jirishanca e do Rondoy, montanhas de 6000 metros muito vertiginosas.
Encontrei um Kenual muito velho e muito grande, nasceu na encosta de uma montanha menor, sua copa segue desde uma parede rochosa até a margem da lagoa formando uma grande sombra. Abaixo do Kenual havia uma pilha de pedras que formava uma espécie de muro, e ao lado destas pedras empilhadas uma grama verdinha se estendia até a lagoa. Aquele seria o lugar ideal pra eu montar meu bivaque e passar ali dois dias muito tranqüilos debaixo daquela majestosa e imponente árvore.

Estendi meu isolante na grama, coloquei o saco de dormir sobre ele e empilhei algumas pedras formando um semi-circulo onde ficaria com a cabeça. Enquanto arrumava meu cantinho, muitas avalanches rolavam parede abaixo do Jirishinca e Rondoy, ouvindo-se de muito longe um forte estrondo. No começo fiquei assustado, mas depois fui acostumando e as avalanches foram diminuindo. Estava faminto, preparei uma sopa e comi com alguns pães.

Teria ainda algum tempo até anoitecer então resolvi preparar meu material para pescar. Antes de partir me informei se existiam trutas naquelas lagoas. Levei linha e uns 4 anzóis. Improvisei uma vara com meu bastão de caminhada, o que descobri mais tarde não ser uma boa idéia. Não me agüentei e fui testar meu equipamento. Ao lado do Kenual que acampei havia um outro com um galho muito grosso que se estendia acima da lagoa por uns 3 metros. Não resisti, peguei uns pedaços de pão, subi no galho, arrumei um lugar pra sentar, com os pés quase tocando aquela verde lagoa, fiquei ali sentado relaxando e esperando que uma truta mordesse minha isca. Não entendia nada de pescaria e acabei voltando de mão vazia antes de escurecer. O pôr do sol parecia uma pintura, a gigantesca parede branca de neve da face oeste do Jirishanca e Rondoy estavam agora com a cor laranjada de um final de tarde, o verde esmeralda da lagoa aos poucos estava escurecendo. Juntei muitas lenhas de árvores e arbustos encontrados no chão e próximo do acampamento e ao cair a noite uma bela fogueira iluminou aquele cantinho selvagem a beira da lagoa. Estava um pouco frio, mas o calor da fogueira também deixava o lugar mais aquecido. Entrei em meu saco de dormir e fiquei observando aquele céu estrelado e o muro de montanhas que me cercava, mesmo a noite é possível definir bem a silueta das montanhas, pois os glaciares e os paredões de gelo são tão brancos que o mínimo de luz é suficiente para notar sua presença. Dormi tranquilamente abaixo daquela árvore que me protegia de um céu lindo e estrelado.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2008

Huayhuash - Segundo dia

Acordo empolgado e ansioso pelo meu primeiro dia Huayhuash acima. Como combinado às seis horas da manhã Orlando me chama para sairmos. Enquanto ele prepara seus burros para o trabalho eu engulo um sandwish que sobrou e preparo meu galo de briga (mochila).
Poucos minutos de caminhada e já estamos fora das ruas do pequeno vilarejo de uns 500 habitantes.
Começamos a caminhada por áreas de cultivo, plantio e pastagens para os animais. Essas áreas são pequenas, pois o terreno é íngreme e montanhoso. Mas os camponeses preparam pequenos platôs, onde cultivam suas plantas e cuidam de seus animais. O tempo vai passando, os kilometros e montanhas mais baixas ficando pra trás, pois a trilha segue subindo. Vou ficando cada vez mais impressionado, pois por mais longe que estejamos indo cordilheira adentro, continuo vendo pequenas casas de pedras empilhadas, cobertas por galhos e palha, onde vivem pessoas e animais.

As terras aqui não devem ser comercializadas, são terras selvagens e estão a disposição daqueles que têm coragem de viver tão isoladamente.Conforme íamos subindo as área de cultivo formavam pequenos mosaicos e quebra-cabeças vistos de cima. Vejo que algumas dessas casas perdidas entre montanhas estão abandonadas, nem todos devem agüentar a solidão e o isolamento imposto por esse hostil ambiente de montanha. No início a trilha segue o rio Pacllión por um bom trecho, o som das correderas é muito forte e impressionante.
Logo começamos a subir uma forte encosta de montanha, acreditava que o percurso seria mais leve, mas me enganei, cruzar e subir as montanhas foi mais pesado do que eu imagina, principalmente neste primeiro dia que deixamos a vila a Três mil metros e vamos até próximo dos quatro mil metros de altitude. Esta parte da trilha não é muito batida o que dificultaria muito se estivesse sozinho. Foi muito bom ter conseguido a companhia de Orlando, com os mapas que trouxe não encontraria o caminho com facilidade, com certeza me perderia em alguns trechos. Continuamos subindo, eu sabia que meu primeiro acampamento estaria ao fundo no vale do outro lado da montanha, próximo do Diablo Mudo(5200m), uma das poucas montanhas de fácil ascensão em Huayhuash.

Quando chegamos a uma planície próxima do cume, me separo de Orlando, ele vai buscar lenha em uma floresta e encontrar sua esposa no alto da montanha onde cuidadava das ovelhas. Orlando me aponta o Diablo Mudo e por onde devo seguir no fundo do vale, então me diz que ele tem um curral próximo do fundo do vale e se eu quisesse poderia acampar por lá. Nos separamos e eu sigo só, não estava preocupado porque o caminho estava muito batido e avistava ao longe o fundo do vale onde deveria chegar naquele dia. Cruzo uma floresta de Kenuales, fico encantado com essas árvores, acredito que seja uma espécie de cipestre, sua casca parece papel crepom marrom e laranjado, seus galhos tortos pelo vento e seu desenho em relação ao terreno é muito interessante e naturalemente artístico.
Cruzar essa pequena floresta sozinho, ouvindo o estralar de galhos e folhas que vou pisando, ouvindo um pequeno chiado criado pelo vento ao cruzar as densas folhagens destes pinheiros em meio a um silêncio constante e sentido uma leve e gelada brisa nas costas dá uma sensação de liberdade muito grande. Junto desta sensação de liberdade surge uma outra muito mais forte. Uma sensação de solidão invade meus pensamentos. Por alguns instantes que antedecedem o final do floresta penso em tudo o que me ocorreu durante o ano, na minha separação, nos meus amigos, nas pessoas especiais da minha vida e todos aqueles que gostaria que estivessem comigo. Foi uma sensação estranha, como se eu fosse encontrar a morte no final daquela floresta. Espero que no dia da minha morte tenha tempo pra assistir esse filme novamente.

Logo deixo o jardim da bruxa de Blair pra trás e já estou no vale que aos poucos vou atravessando. Depois de uma hora de caminhada seguindo pela encosta do vale encontro um lugar cercado de pedras e pequenas casas feitas de pedras e cobertas com palhas, parece que este lugar esta deserto, havia sinais de animais e pessoas, mas não encontrei ninguém. Uns 50 metros desta área cercada encontro isoladamente o que será ou deixou de ser mais uma dessas casinhas de camponeses. Considero como uma ótima opção para bivacar, entro e verifico que é realmente perfeito, as paredes de pedra me protegerão do vento gelado e não perderia o show das estrelas cadentes pois não havia teto para me atrapalhar.

Preparo e como um purê de batatas com atum e vou descansar um pouco. No final do dia, antes do anoitecer, depois de umas duas horas de cochilo, escuto os habitante locais retornarem, são centenas de ovelhas e seus pastores que passaram o dia no alto das montanhas e que agora retornam aos seus refúgios. Na redondeza vivem três famílias, que estão ali cuidado das suas ovelhas. Vejo Orlando e sua esposa chegando em um dos abrigos, logo levo um chocolate quente para eles. Enquanto bebia aquela saborosa bebida de gringo, ele me falava orgulhoso da sua criação de ovelhas, de onde ele tira a maior parte da sua renda, fornecendo lã para a fabricação de roupas. Me retiro do seu curral e dirijo-me ao meu refugio, antes de partir Orlando me adverte para ter cuidado, pois há pumas selvagens na região, e por isso ele deixa alguns cães pastores cuidando das ovelhas. Já retorno mais preocupado, agora meu refúgio sem porta alguma, isolado, já não parece mais tão seguro. Improvisei uma porta com bastões, mochila, anorak, tudo o que sobrou eu deixei na entrada, como se aquilo fosse impedir algum animal com tanta força como um puma.

Minha preocupação era que meu refugio estava cheirando a atum, e não queria ver gatinhos a noite rosnando por perto do meu bivaque. Por sorte estava cansado, o dia teria sido duro, mas estava feliz por tudo estar correndo tudo bem, e também por poder conhecer de perto a vida de uma família daquela região.Durmi rapidamente com a lembrança de um céu maravilhosamente estrelado que aos poucos foi apagando.
Orlando Barnabé e sua esposa, uma das muitas famílias que vivem isoladamente no Andes pastoreando ovelhas e outros animais.

terça-feira, 1 de janeiro de 2008

Huayhuash 1

Primeiro dia:

Huayhuash é uma cordilheira vizinha da Cordilheira Branca, próxima de Huaraz - Peru. Muitas das montanhas mais bonitas e difíceis da América estão ali, como Yerupaja, Siulla Grande, Jirishanca e outras. Minha intenção seria ao menos ver de perto essas colossais montanhas. Como não tinha muito tempo e estava com pouca grana pra pagar uma agencia de trekking, resolvi me aventurar por conta própria em um pequeno trekking pelo lado norte da cordilheira. Digo pequeno porque todo o circuito de Trekking de Huayhuash leva de 10 a 12 dias para ser percorrido, totalizando mais de 160km em terrenos montanhosos.
Como sobraram alguns dias depois das escaladas, eu gostaria de conhecer o caminho até o Yerupaja e acampar no mesmo campo base que Joe Simpson e Simon Yates, quando estiveram escalando o Siulla Grande e de onde originou a história do seu Best Seller montanhístico “Tocando o vazio”.
Saí às 6h da manhã de Huaraz em um ônibus chamado “El Rápido” com destino a Chiquian. Chiquian é uma pequena cidade de onde antigamente se iniciava o caminho. Hoje existem duas estradas de terra que ligam Chiquian a dois altos vilarejos de camponeses, onde se pode iniciar a caminhada. A maioria dos caminhantes inicia por Llamac ou aproveitam a estrada e vão até um outro povoado chamado Matacancha, assim evitando um dia de trekking por estrada de terra. Existe ainda um outra opção que muitos descartam, que seria iniciar o trekking por Paclión, outro vilarejo de camponeses.
O “El Rápido” furou um pneu e se mostrou bem lento para resolver o problema. Uma boa parte da estrada é asfaltada e a viagem até Chiquian segue com tranqüilidade. Se aproximando do destino, o asfalto dá lugar a uma estrada de terra por onde o ônibus tem que seguir lentamente. Muitos homens trabalhavam na estrada. Creio que para o próximo ano todo caminho até Chiquian já deverá estar asfaltado. Atrasamos um pouco e as 9h chegamos em Chiquian. Mas já era tarde e o único “colectivo” que vai para Llamac já estava lotado.
De Chiquian saí uma Van as 8:30 da manhã para Llamac com capacidade para umas 15 pessoas, mas a desse dia já estava com 19 pessoas. Não há outro transporte na cidade, nem sequer taxi ou outro particular, se quisesse ir para Llamac deveria esperar até o próximo dia. Então me deram a idéia de ir para Paclión, uma outra pequena vila no alto das montanhas, para Paclión teria uma outra van as 17:30h.

Fiquei decepcionado, pois planejava estar caminhando por volta de umas 11h da manhã. O que fiz então foi garantir meu lugar na van das 17h. Teria o dia todo para conhecer a pequena cidade de Chiquian.

Por onde caminhava ou parava todos queriam saber pra onde ia, de onde vinha, se precisava de guia, de burros e arrieros, então explicava que estava indo sozinho com pouca coisa, para poucos dias e dispensava os serviços locais. Próximo de uma praça central, fiquei surpreso ao encontrar uma Lan House. Numa vila onde teria que esperar mais de 8h por um transporte, onde nem carro existe, havia internet. É pra vermos que nosso mundo esta realmente se globalizando. Entrei no estabelecimento e logo tirei minha mochila. Havia uns 5 computadores ao lado um do outro, separados por uns velhos biombos preto. Me dirigi até um velho balcão de vidro com alguns materiais de escritórios empoeirados a venda e pedi então um computador para usar. Antes de ir para o computador precisa ir ao banheiro urinar, pedi se havia “baño” no local e a moça me apontou uma cortina de plástico ao lado do balcão e a frente dos computadores. Jurava que ali fosse uma estante simplesmente coberta pela cortina. Que nada, o vaso sanitário estava ali bem no meio do estabelecimento coberto apenas por uma cortina. Não tinha muito tempo pra frescuras então puxei a cortina e mandei ver. Engraçado era o aviso impresso numa folha A4 já meia amarelada que dizia assim: “Servicio Higienico solamente uso urinário”. Imagine fazer o número 2 ali, bem no meio do estabelecimento. Fui para o computador e logo umas duas horas se foram, entre bate-papos com amigos, blogs e sites.
Depois fui encontrar um restaurante, fui ao que parecia ser o melhor restaurante da cidade, devo ter cruzado por uns três. Pedi um cordeiro assado, que seria uma das opções do “Menu Del dia”. A comida estava muito boa, como sempre uma sopa de entrada e depois o prato principal. Melhor mesmo foi pagar 5 Soles pela refeição + o refresco, algo em torno de R$ 2,50. A tarde foi de muita conversa em padaria, na praça, na rua, até que conheci uma querida família que trabalha com o trekking de Huayhuash há muitos anos. Mony foi muito simpática ao puxar assunto comigo enquanto fotografafa uma praça, me apresentou ao seu pai Yorder Barnabé, a quem serei muito grato pelas ótimas dicas e por ter conseguindo um lugar para eu passar a noite em Paclión. Como teria pouco tempo e já tinha perdido mais um dia esperando, Yorder me mostrou um caminho mais ao norte, que teria um belíssimo visual do Yerupaja, então deixei de lado o Campo Base da Siulla Grande e aceitei as dicas de Yorder.

Depois de um dia de muita espera, muita conversa e novas amizades, já estava chegando a hora do meu “colectivo”. Fui até a empresa de onde havia comprado as passagens e lá aguardei por mais uma hora, o estabelecimento de transporte não tinha nem placas novas, ainda funcionava com uma velha pintura da antiga ferreteria que funcionava no local. Enfim por volta de umas 17:40 chega uma camioneta Ford Vermelha, a princípio imaginei que seria um carro de suporte pra levar as bagagens na carroceria. Logo percebi que o povo estava subindo sua bagagem na carroceria e sentando sobre ela. Não acreditava que havia esperado um dia inteiro pra viajar 2 horas empilhado em cima de uma carroceria. Já estava arrependido de não ter pago 200 dólares pra uma agência de Huaraz. Mas o que eu esperava por 8 soles (R$ 4,00). Joguei meu galo de briga pra cima da carroceria e boa, mas já não havia lugar pra ir sentado. Depois de um pouco de confusão pra decidir quem seriam os dois sortudos que iriam ao lado do motorista, partimos às 18h com umas 16 pessoas amontoadas entre malas, sacos de sementes e pintinhos. Eu já estava na fase do “foda-se”, vamos embora, este seria meu primeiro transporte-aventura, e que aventura, em pé duas horas por estradas que serpenteiam as encostas das montanhas. Dava um frio na barriga quando em algumas curvas os cascalhos rolavam montanha abaixo, e bem do meu lado ainda.
Logo a noite caiu e só víamos a luz da camioneta rasgando a silenciosa e imensa escuridão das montanhas. Estava um pouco gelado, assustado e preocupado, pois chegaria a noite em um vilarejo desconhecido e procuraria por um estranho para me dar abrigo naquela noite.

Depois de duas horas de montanha russa chegamos ao simples e pobre vilarejo de Paclión, ao chegarmos um casal de simpáticos camponeses que traziam sementes da cidade me ofereceram alojamento, sabiam que eu era um turista brasileiro muito distante de uma hospedagem. Agradeci a oferta, pois eu já tinha uma indicação de Yorder, teria que encontrar em Paclión seu irmão, Orlando Barnabé, logo ao descer um bêbado se ofereceu para me levar até a casa de Orlando, para meu alívio a casa ficava umas duas quadras da praça onde descemos. O bêbado batia na porta e gritava pelo nome do Orlando, eu já estava quase morrendo de vergonha, chegar na casa de um estranho aos gritos e ponta-pés seria muito pra terminar aquele dia. Logo Orlando surgiu da casa de seu vizinho, então me apresentei, disse que teria vindo procurá-lo por indicação de seu irmão. Então me conduziu ao segundo piso de sua humilde casa de adobe, onde eu passaria aquela noite. Orlando é um humilde pastor de ovelhas e na temporada de Trekking também trabalha de arrieiro para seu irmão, conduzindo animais e turistas montanha acima.
Foi muito bom ter conseguindo aquele quarto no vilarejo, já que não estava levando barraca para essa caminhada, dormir em um quarto, por mais simples que fosse seria muito melhor que fazer um bivaque na praça da cidade ou pelas redondezas desconhecidas. A casa era muito simples, com paredes de adobe(barro e palha) e piso de chão batido. Uma cadeira de palha azul desbotada escorada na velha e empoeirada porta servia como uma tranca. Aquele quarto seria um ótimo abrigo para aquela noite. Conversamos um pouco e Orlando me disse que no próximo dia subiria a trilha para cuidar de suas ovelhas, então percebi que minha sorte já estava melhorando. Seria muito bom ter companhia no começo da trilha. Estendi meu saco de dormir sobre uma velha cama que parecia que iria desmontar com meu peso. Estava cansado e logo adormeci. Fiquei muito feliz com a hospitalidade dessa família, só mesmo em um lugar muito distante, entre pessoas humildes e simples que encontramos essa escassa compaixão pelo próximo. Nessas montanhas o povo leva uma vida muito diferente daquela que levamos em nossas contaminadas cidades. É algo como retroceder uns 200 anos . A parte mais nobre desta viagem é conhecer este povo que vive e sobrevive no coração da cordilheira dos Andes. Quanto mais longe eu vou, quanto mais conheço esse povo, mais admirado eu fico, como podem ser tão guerreiros, tão fortes e ao mesmo tempo simpáticos e hospitaleiros.


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